Infecção relacionada à assistência à saúde em pediatria

As infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS) ou infecções hospitalares são um dos eventos adversos mais frequentes associados à assistência à saúde e um importante desafio de saúde pública. Na pediatria, acomete, principalmente, pacientes em unidades de terapia intensiva. (UTIs). Sua etiologia é multifatorial e existem várias causas que favorecem seu surgimento, afetam a segurança do paciente, aumentam custos, a morbidade e podem levar até o óbito.

Panorama 

Pacientes pediátricos, especialmente os neonatais hospitalizados em unidades de terapia intensiva, são mais suscetíveis às IRAS tanto pela presença de fatores intrínsecos que são relacionados ao estado do paciente, como déficit imunológico, doença de base, prematuridade, entre outros; e fatores extrínsecos, como o ambiente, fármacos e procedimentos invasivos necessários. Os principais fatores intrínsecos são: sexo, idade, peso para a idade, quadro clínico ou cirúrgico, estado infeccioso na admissão, pontuação em escores de gravidade clínica e tempo de hospitalização prévio à admissão em outra UTI. Já os fatores extrínsecos são: medicamentos (aminas vasoativas, corticoides e/ou bloqueadores H2), hemoderivados, nutrição parenteral, nutrição enteral e procedimentos invasivos (acesso venoso profundo, ventilação mecânica e cateter vesical de demora).

Diferente do que ocorre em UTIs de pacientes adultos, em que infecção do trato urinário é o sítio de infecção mais prevalente, nas unidades de terapia intensiva pediátricas, os principais sítios de infecção são as pneumonias e as infecções de corrente sanguínea. 

  • Uma meta-análise brasileira revelou que a incidência média de IRAS neonatal é de 26,3% entre recém-nascidos em UTIs neonatal, com densidade de infecção por corrente sanguínea (BSI) de 13,1 por 1.000 dias-cateter.
  • Em neonatos, a infecção de corrente sanguínea primária representa até 44,4% dos casos.
  • Um estudo de corte com crianças hospitalizadas em unidades pediátricas e UTIs pediátricas de um hospital universitário mostrou que 18,5 % desenvolveram IRAS. Esse grupo teve um aumento de 4,2 vezes nos custos de hospitalização, especialmente em casos com sepse ou colonização por microrganismos multirresistentes.


Em relação aos agentes etiológicos que tem potencial de causar IRAS em uma UTI pediátrica, estudos mostram que há uma incidência maior de vírus e bactérias gram-positivas, seguida de bactérias gram-negativas. No entanto, as infecções por fungos têm se destacado nos últimos 10 anos, observando-se um aumento de 15 vezes no número de infecções em pacientes menores de 15 anos, sendo 8% em menores de 5 anos.

  • A resistência antimicrobiana é preocupante: cerca de 44% dos isolados em UTIs pediátricas são multirresistentes, com destaque para Enterobacteriaceae, Pseudomonas aeruginosa e S. aureus.
  • Em infecções por aureus, a prevalência de MRSA hospitalar foi de 8,1% em hospital pediátrico do sul do Brasil.
Resumo dos principais dados sobre IRAS pediátricas no Brasil

 Contexto

Incidência/
Prevalência

Principais 
Infecções

Micro-organismos Predominantes

UTI Neonatal

36,1/100 pacientes;
23,5/1.000 pacientes-dia

BSI, pneumonia

CoNS, S. aureus, Klebsiella, Enterobacter

UTI Pediátrica

3,6–6,3/100 admissões

BSI, pneumonia, ITU

Enterobacteriaceae,
P. aeruginosa, S. aureus

MRSA hospitalar

8,1% das infecções por
S. aureus

BSI,
infecção respiratória

S. aureus (MRSA/MSSA)

Multirresistência

44% dos isolados em UTIs

Enterobacteriaceae,
P. aeruginosa

Impacto

As IRAS aumentam a morbidade, a mortalidade e os custos relacionados ao tratamento dessas infecções. De acordo com o Centers for Disease Control and Prevention dos Estados Unidos da América (CDC/EUA), os custos médicos diretos das IRAS para hospitais, apenas nos EUA, variam de US$35,7 a 45 bilhões anuais. Um estudo realizado no Brasil concluiu que o custo diário do paciente com IRAS foi 55% superior ao de um paciente sem IRAS.

É importante destacar que uma grande porcentagem das IRAS é evitável se forem executadas medidas eficazes de prevenção e controle de infecção (PCI) pelos serviços de saúde.  Medidas para prevenção baseadas em evidências devem ser adotadas em todos os serviços de saúde, tanto no âmbito hospitalar, como na atenção primária à saúde ou ambulatorial, nos estabelecimentos que prestam assistência a pacientes crônicos ou na assistência domiciliar, ou seja, onde houver prestação de assistência a pacientes. Pesquisas mostram que quando os serviços de saúde e suas equipes conhecem a magnitude do problema das infecções e passam a aderir aos programas para prevenção e controle de IRAS, pode ocorrer uma redução de mais de 70% de algumas infecções como, por exemplo, as infecções da corrente sanguínea.

Segurança do paciente

Receber uma assistência à saúde de qualidade é um direito de todo indivíduo e os serviços de saúde devem oferecer um cuidado que seja efetivo, eficiente, seguro e que garanta a satisfação do paciente em todo o processo de cuidado. A temática que envolve a segurança do paciente e a qualidade do cuidado têm sido amplamente discutidas na literatura científica, assumindo papel de extrema relevância com vistas a tornar mais segura a assistência ao paciente em serviços de saúde.

Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), a segurança do paciente está relacionada à redução, ao mínimo aceitável, do risco de dano desnecessário associado ao cuidado de saúde, sendo também referida como componente crítico da qualidade dos cuidados de saúde e pré-requisito para o atendimento de alta qualidade.

A Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) é um órgão de assessoria à autoridade máxima da organização hospitalar,  e o Serviço de Controle de Infecção Hospitalar (SECIH)  o órgão executor, com o fornecimento de dados e estatísticas do perfil da instituição, clientela, qualidade da assistência prestada e o principal resultado é o embasamento consistente para  à tomada de decisões assertivas e em tempo ótimo, para a execução das ações de  prevenção e controle das infecções relacionadas à assistência à saúde. São inúmeras as atividades, e estas envolvem a vigilância epidemiológica e microbiológica,  acompanhamento e implementação de processos assistenciais, investigações e controle de surtos, monitoramento do uso de antimicrobianos, orientações aos profissionais expostos a doenças infectocontagiosas (DIC) e/ou vítimas de acidentes com material biológico, educação permanente dos profissionais de saúde, gerenciamento de resíduos, controle da higiene ambiental, assim como envolvimento dos pais e cuidadores  nos processos  assistenciais dos pacientes.

Estratégias de prevenção e segurança do paciente
  1. Comitês de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH), programas como o PCIH (Prevenção e Controle de Infecções Hospitalares) e manutenção de SECIHs em estabelecimentos de saúde.
  2. Protocolos e ferramentas clínicas (checklists, fluxos e manuais).
  3. Vigilância epidemiológica hospitalar e de DIC com as devidas notificações aos órgãos de saúde competentes.
  4. Programa de uso racional de antimicrobianos (Stewardtship): o modelo de gerenciamento de antimicrobianos praticado pelo Hospital Pequeno Príncipe desde 2013 já foi levado para outros 15 hospitais localizados em todas as regiões do Brasil, sendo eles público, privado ou filantrópico, de médio e grande porte.
  5. Organizações certificadoras: a Organização Nacional de Acreditação (ONA) avalia instituições com foco na segurança do paciente, oferecendo níveis de acreditação (1 a 3) que incluem indicadores de segurança e qualidade assistencial. O Hospital Pequeno Príncipe recebeu a recertificação Nível 3 no processo de Acreditação ONA. O Nível 3 – conceito máximo dessa importante certificação, que valida a excelência em gestão, qualidade e segurança, demonstrando os melhores resultados e, acima de tudo, no cuidado centrado no paciente.
  6. Conscientização global: o Dia Mundial da Segurança do Paciente, celebrado em 17 de setembro, promove temas como diagnósticos seguros, medicação sem danos, e cuidados neonatais seguros – engajando sistemas de saúde e profissionais.
Saiba mais sobre o assunto no Curso Avançado de Prevenção de IRAS em UTIs Pediátricas e Neonatais – do Conhecimento Científico à Prática

Uma excelente oportunidade para profissionais da saúde que desejem aprofundar seus conhecimentos e habilidades na prevenção de IRAS em ambientes críticos pediátricos. Pois existe uma lacuna de conhecimento e de dados hospitalares em pacientes pediátricos. Este curso aborda os tópicos avançados e os protocolos mais recentes para pacientes pediátricos, com foco em criar ambientes seguros e oferecer atendimento de qualidade em unidades de média e alta complexidade. Serão tratados aspectos essenciais da prevenção e controle das IRAS, com ênfase na atuação da equipe multiprofissional e nas particularidades das UTIs Pediátricas e Neonatais.

Referência bibliográfica:

Texto aprovado pela médica pediatra Heloisa Giamberardino coordenadora do Serviço de Epidemiologia e Controle de Infecção Hospitalar (SECIH) e do Centro de Vacinas (CEVA) do Hospital Pequeno Príncipe.

Esse texto foi feito com auxílio de inteligência artificial:

https://consensus.app/search/infeccoes-relacionadas-assistencia-pediatria/r5X6MoykQ9inuF9RQm-whg/?utm_source=share&utm_medium=clipboard 

https://chatgpt.com/share/689baaed-9414-8007-8801-6c12f1ea5268

Infecção Relacionada à Assistência à Saúde em Pediatria: Uma Revisão de Literatura – Mariana De Oliveira Lima Caldas e Maria Luisa Freire Gonçalves – Instituto Nacional de Ensino Superior e Pesquisa – Salvador, 2017. https://www.ccih.med.br/wp-content/uploads/2018/02/Mariana-Maria-Luisa.pdf

Programa Nacional de Prevenção e Controle de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (PNPCIRAS) 2021 a 2025 – Gerência de Vigilância e Monitoramento em Serviços de Saúde (GVIMS), Gerência Geral de Tecnologia em Serviços de Saúde (GGTES), Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) – Brasília, 2021. https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/publicacoes/pnpciras_2021_2025.pdf

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